Terça-feira, Novembro 24, 2009

Epistemologia e o Livre-arbítrio

A tentativa de edificar um paralelismo entre a filosofia do conhecimento – entendida aqui como “epistemologia” – e a teoria do “livre-arbítrio” releva de um conjunto de questões extremamente pertinentes para o mundo da filosofia em geral e o “submundo” da filosofia da ciência em particular. A forma como vemos o mundo e o concebemos em termos ontológicos depende efectivamente da maior ou menor precisão fenomenológica na forma como inteiramos o acto de produção científica. E, ao contrário do que poderia ser pensado, o “argumento dominador” (relativo ao determinismo vs. libertismo) jaz impertinentemente nos meandros da temática epistemológica.
Tendo sempre Karl Popper como fronteira inolvidável – própria de uma ciência dedutiva construída por propensões com vista à evolução por “falsificabilidade” – entre uma ciência observacional e uma ciência ideográfica, devemos ter em conta que existe uma barreira enorme entre a ciência própria dos neo-positivistas e a ciência “menos ciência” dos pós-modernistas.
A ciência indutiva e observacional é vista pelos cientistas – principalmente aqueles que presidem à estruturação das ciências ditas “exactas” – como sinónimo de uma Verdade única constituída por Leis, sendo que estas, por terem um certo poder preditivo, tornam o mundo pré-determinado. Bertrand Russell diz, em entrevista publicada na obra “A minha concepção do mundo” (1970) o seguinte: “Estava convencido de que todos os movimentos da matéria, a partir da nebulosa primitiva e por aí adiante estavam condicionados, e que a linguagem falada era também atingida pelo mesmo determinismo. Por isso convenci-me de que as leis da dinâmica tinham assegurado, na época da nebulosa primitiva, as palavras exactas que o Sr. A haveria de pronunciar em determinada ocasião; o Sr. A, portanto, não teria qualquer livre-arbítrio quanto às palavras que havia de pronunciar.”
É irónico que as mesmas leis da dinâmica, que a um nível macroscópico são leis de peso determinístico, tornam-se, a um nível “quântico” “leis de probabilidades”. Que é o mesmo que dizer que acontece aquilo que tem sido apelidado de “Ordem sobre o Caos”. Ou seja, leis com algum peso de determinismo e futurismo baseiam-se em movimentos tão ínfimos e tão infinitesimais (falamos de movimentos de partículas sub-atómicas) que a incapacidade de previsão de todos os movimentos leva a transformar Leis propriamente ditas em teorias de probabilidades. E quanto mais nos afundamos no nível microscópico desses movimentos, mais os mesmos se tornam indeterminados – tanto que a mera tentativa de os determinar vicia o sistema – e, aumentando o grau de indeterminismo, torna-se possível categorizar ontologicamente o Livre-arbítrio. Esta teorização – subjacente ao por muitos chamado de “efeito borboleta” – é a base do pós-modernismo, o qual, munido de instrumentos historicistas e contextuais (para utilizar a terminologia crítica de Popper em “A pobreza do historicismo” – 1957 – e em “O mito do contexto” – 1996) advoga a impossibilidade de determinação, a impossibilidade de existência de leis, e a evolução da própria ciência – ao sabor da história/cultura vigentes – por “paradigmas e revoluções” (Thomas Kuhn). Temos aqui a base daquilo que Popper denomina de “racionalismo dogmático”, que é o pré-requisito do relativismo, associados ambos – em “A sociedade aberta e os seus inimigos” (1962) – sobretudo às teorizações “políticas” de Platão e Marx.
Devo dizer que sempre achei que o erro crasso dos pós-modernistas residia no facto de acharem que existe uma igualdade entre a impossibilidade “actual” de previsão dos movimentos infinitesimais das partículas e a impossibilidade real da mesma previsão. A meu ver, o cientista poderá não ter grandes possibilidades de previsão dos movimentos dos “quanta” no momento actual, mas isso não significa que os mesmos não sejam virtualmente determináveis, num momento futuro, em que sejamos donos de instrumentos tecnológicos suficientemente sensíveis. E a possibilidade de previsão virtual dos milhões de movimentos e dinâmicas que formam o “efeito borboleta” inquinam a existência de um verdadeiro relativismo, fazendo com que, a médio ou longo prazo, as diversas ciências humanas e sociais tenham de abdicar face aos métodos das ciências exactas. Sou, portanto, dos poucos que acreditam que a consciência aprimorada que todos temos de ser livres não passa de uma mera ilusão.
No entanto, não é despiciendo o contexto discussional do pós-modernismo, principalmente aquele que é formulado em “A estrutura das revoluções científicas” (1962) de Kuhn, o qual coloca a tónica no cientista enquanto “homem”, vítima de um tempo e de um espaço contextualmente determinados.

Publicado no "As Artes Entre As Letras", 04/11/09

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Ciência e Epistemologia: dualidade indissociável

Quem acompanha o meu blog sabe a importância que dou à Ciência e às matérias epistemológicas (e a relevância que tal tem para a compreensão do 'Método' em Fisioterapia). Estou, actualmente, a publicar artigos sobre Epistemologia no jornal "As Artes Entre As Letras".
Apresento aqui um dos primeiros artigos que publiquei, nomeadamente a 07/10/09
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Ciência e epistemologia: dualidade indissociável


Desde os antigos gregos que o poder do ‘Logos’ tem sido relevado enquanto matéria quase mítica. A filosofia, e em particular a teoria do conhecimento, tem-se interessado pela Verdade, sendo que, mais tardiamente, somente no tempo de Galileu, ter-se-á inventado o conceito de “ciência moderna” (como um campo independente da filosofia). E, a partir daí, desde o século XVI, até à actualidade, a Ciência tem-se afirmado enquanto sinónimo de Verdade, baseada num sistema de leis de carácter quase inquestionável, assim como tem permitido a transformação – tanto tecnológica, quanto ideomática – do mundo.
Muito pode ou poderia ser dito sobre Ciência e o método que a consubstancia, mas, a meu ver, são três as fases fundamentais de construção de um método dito expressamente “científico”. A ciência moderna foi primacialmente substanciada pelas descobertas de Copérnico e Galileu, e epistemologicamente teorizada pelo (neo)positivismo lógico (conhecido também por essencialismo). Segundo o “clássico” método científico, a observação norteia as hipóteses científicas (princípio iniciático de Francis Bacon), as quais poderão ou não ser confirmadas pela experimentação. Esta é a ciência mais “típica”, baseada na observação e no processo de generalização indutiva, e é a força motriz das ciências ditas “exactas”. É influenciada pela filosofia analítica de Russell e pela semiótica de Wittgenstein, as quais, de certo modo, pendem mais para o empirismo do que para o racionalismo, tendo como cenário base a divisão continental clássica mais importante da história da filosofia. Foi preciso aparecer um homem de nome Karl Popper (1902-1994) para que esta ciência “indutiva” fosse questionada, assim como a tendência inequívoca dos investigadores para quererem forçosamente “confirmar” as suas teorias. Segundo Popper, e o seu método do “Racionalismo crítico”, um investigador nunca deveria fazer por “confirmar” as suas próprias teorias, pois acabará, mesmo que inconscientemente, por concluir aquilo que deseja efectivamente concluir. Assim sendo, a ciência deveria basear-se na “refutação”, na “falsificabilidade”, na tentativa de detectar erros nas teorias aceites como “certas e irrefutáveis”. A ciência de Popper é dedutiva e, apesar de o filósofo admitir a existência de uma Realidade exterior única inolvidável (adoptando um tipo de realismo científico que contraria tendências fenomenológicas e essencialmente psicologistas), toda a teoria não passa de mera conjectura, e portanto, toda a ciência possui uma categoria de efemeridade (a função do cientista passa pelo processo de aperfeiçoamento da teoria, por um mecanismo de trabalho de “tentativa e erro”). Finalmente, no final do século XX, surge, a partir do conceito de “paradigmas” de Thomas Kuhn, uma ciência dita “pós-moderna” – representada, em Portugal, por Boaventura de Sousa Santos – a qual admite que a Verdade está totalmente dependente das idiossincrasias socioculturais e pessoais adstritas ao próprio cientista. Para os pós-modernistas, existe um relativismo absoluto e não existe uma Ciência no verdadeiro e apodíctico sentido do termo.
Esta última modalidade epistemológica de ciência é comum essencialmente às ciências sociais e humanas. Nas ciências exactas, tal paradigma epistemológico aparece consubstanciado pelo “princípio da incerteza” de Heisenberg e pelo teoria do Caos (encontramos, portanto, aqui a ponte entre os dois “tipos” de ciência). Esta ciência dita “historicista” foi criticada profusamente por Popper em obras como “A pobreza do historicismo” (primeira edição de 1957; tradução portuguesa pela “Esfera do Caos”) e “A sociedade aberta e os seus inimigos” (primeira edição de 1962; edição portuguesa por “Fragmentos”), pelo facto de, pelo seu relativismo, permitir e justificar a emergência de uma ciência de “várias verdades”, portanto “não realista” e não “falsificável”.
Acabamos por ter uma dupla possibilidade de matriz de conhecimento científico: a ordem, expressa em termos de leis, com base no caos (expressa em termos de uma física dos quanta), que é própria de uma ciência dita “exacta”, e o caos com base na ordem (expressa nos termos da teoria das ideias ou essências de Platão), que é própria de uma ciência dita “relativa”. A primeira tende a ser mais apriorística e admite a impossibilidade do livre arbítrio (para esta, Deus pode mesmo estar “morto”...). A segunda tende a ser mais empirista (num sentido mais idealista, como em Hume), e admite a possibilidade de uma fenomenologia da acção irrepetível e do livre arbítrio, seja ou não de génese existencialista (para esta, Deus pode mesmo jogar aos dados ou nem sequer interferir com as nossas vidas...). Deste binómio realismo-subjectivismo ou essencialismo-pós-modernismo, resulta uma metodologia científica centrada mais nas investigações nomotéticas, naturalmente mais “falsificáveis”, ou então, uma metodologia centrada mais nas investigações ideográficas, como os “estudos de caso”, mais adaptadas à descrição de realidades singulares e irrepetíveis, que tendem a ser vistas por cientistas sociais como próprias de uma antropologia, sociologia e/ou etnologia descritiva de populações com caracteres variantes. Os dois “eixos” descritos cruzam-se constantemente, em várias ciências ainda indefinidas epistemologicamente, como é o caso da psicologia e das ciências da saúde. Mas isso é conversa longa, gerando ainda grandes polémicas...
Acontece que as diversas diferenças epistemológicas tratadas não são, infelizmente, do conhecimento da maioria dos cientistas portugueses. Aliás, pessoalmente conheci doutorados em química e física que nunca ouviram falar, por exemplo, de Popper ou do “Discurso sobre as ciências” de Boaventura de Sousa Santos. Para muitos deles a ciência continua a gerir-se pelo paradigma “positivista”. E assim sendo, o processo científico continua a realizar-se através de confirmações de hipóteses de cientistas nem sempre “inocentes”. Isto é o mesmo que dizer que, com uma ciência feita de “confirmações”, e que desvaloriza a importância do erro e da infirmação de hipóteses, os cientistas acabarão muitas vezes, mesmo que inconscientemente, por concluir aquilo que efectivamente desejam concluir (coisa que Popper denominou de “Efeito Édipo”). Tenho observado este fenómeno a ocorrer constantemente nos estudos da área das ciências da saúde e das ciências sociais e humanas. Se acrescentarmos a isto os problemas normais do “fazer ciência” (a ignorância metodológica, os erros da estatística, a falta de ética da parte das publicações demasiadamente ligadas a lóbis, os atrasos no processo de publicação e toda a catadupa da fraude – como a cópia ou o plágio, assim como a manipulação parcial de dados aquando da pesquisa, tratamento estatístico ou acto de revisão bibliográfica), acabamos por deparar-nos com a necessidade de uma Ética centrada na dualidade impartível entre a metodologia científica do cientista-técnico e a epistemologia do cientista-filósofo.
Daí que não faça sentido existirem certas disputas, assim como cientistas “positivos” fanáticos com a ideia de Leis e invariantes, ou como cientistas sociais, igualmente fanáticos, que negam a existência de uma natureza humana com certos universais. Tenho a certeza que a inexistência de uma dialéctica que caminha no sentido de uma síntese hegeliana de consensualidade advém precisamente da falta de comunicação entre o cientista e o “filósofo”.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Curso "Reeducação Postural e Cadeias Musculares": conclusão

O curso da Lousã realizou-se e parece que houve bastante satisfação no respeitante ao mesmo. Não tenho os dados da avaliação, mas, pelo pouco que vi, as pessoas pareciam satisfeitas. Houve, inclusive, várias possibilidades de troca de ideias e partilha de conceitos. Mas, como nem tudo são rosas, há efectivamente coisas que não correram na perfeição. E o aspecto que demonstrou ser mais notório foi precisamente o facto de o curso ser curto de mais para as necessidades de avaliação e intervenção postural, principalmente por parte de quem não tinha formação de fisioterapeuta. Talvez tenha o hábito de sobrevalorizar os formandos... não sei... Sei que, num curso próximo, tem de ser aumentado o tempo de avaliação e intervenção, com necessário prolongamento do curso na sua duração.
Vou dando mais notícias.
Abraços

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Curso "Reeducação Postural e Cadeias Musculares"

Ex.mos leitores

É com enorme prazer que anuncio a realização do Curso "Reeducação Postural e Cadeias Musculares", na Lousã, pela ARCIL, nos dias 30 e 31 de Outubro. O curso terá uma parte teórica - imprescindível - dedicada aos temas que tenho desenvolvido no blog ao longo destes anos - ex. método Mézières e métodos neo-mézièristas, e uma grande parte prática com tratamento de doentes e trabalho individual e em grupo de Intervenção Postural. É o primeiro grande curso no qual desenvolverei os principais conteúdos a que se dedica este blog.
O contacto para inscrição é o 239990300 ou arcil@arcil.org (Terapeuta Ana Moura Pereira). O curso tem um custo de 50,00 euros ou de 80,00 euros (se incluir refeições, jantar convívio e estadia).
Até breve

Domingo, Setembro 20, 2009

Saúde, políticas e economias

Numa altura em que o discurso político aparece francamente mediatizado, começo a interessar-me bastante pela filosofia política, território desconhecido de vários dos políticos "profissionais". E, no âmbito do dicurso político vigente, volto a preocupar-me com a questão da Fisioterapia e da forma como a mesma é mais ou menos valorizada pelo Serviço Nacional de Saúde. Posso dizer, desde já, que, na clínica onde trabalho, o CCR, a grande maioria dos doentes provém do Serviço Nacional de Saúde. Daí que as políticas referentes ao mesmo tenham franca importância para a minha actividade profissional. Aliás, poderei dizer que, se o Serviço Nacional de Saúde deixasse de existir para a Fisioterapia, cerca de duas dezenas de trabalhadores iriam certamente para o desemprego, eu incluído. Daí que, a determinada altura, dou por mim a esquecer o meu lado humanista, e começo a preocupar-me cada vez mais em agradar aos doentes que vêm dos subsistemas privados. Não que seja propriamente a favor da privatização compulsiva dos serviços de saúde... Mas sou a favor da manutenção do meu emprego! Portanto, a politização e a economização das vidas dos fisioterapeutas portugueses corresponde a um processo amplamente irreversível. Claro que muito poderia ser dito sobre a qualidade do SNS, sobre a utilização de um número infinito de credenciais, sobre a qualidade dos fisioterapeutas que trabalham em clínicas apinhadas de doentes... Mas, indubitavelmente, o futuro passa pela objectivação da qualidade do SNS, no seio do qual profissionais e serviços têm de ser repensados e reformulados, com vista à clarificação do Sistema e das suas potencialidades.
No próximo domingo será escolhido novo Governo. Confesso que estou cansado de ouvir sempre as mesmas palavras propaladas pelos mesmos políticos. A esquerda radical é viciada nas políticas de nacionalização, e a direita está obcecada com as privatizações... como sempre foi e continuará a ser. O país não sobreviveria a tal radicalismo. Daí que, sobrando o Centro, não posso deixar de concordar que Sócrates é o único homem capaz de moldar a imagem de uma forma que só um político talentoso consegue moldar. E, quanto mais avançam com as conversas das "escutas" e com outras obsessões do Jornal Público, jornal que, de dia para dia, caminha para a perdição, mais próximo me sinto do Eng. Sócrates. Quem me dera que o Governo deixasse de insistir na poupança dos recursos de saúde... Se existir um franco investimento na Fisioterapia, tenho a certeza que certas coisas podem mudar. E aí talvez possamos vir a conquistar novos públicos e novas facções... muito para além dos aparentemente "inúteis" idosos...

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

O mundo das psicoterapias: essa grande cabala

(Texto escrito num espírito de descodificação da Realidade, com implicações para todo o mundo que temos vindo a explorar... dos paradigmas e do binómio Global vs. Analítico...).
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O texto que me proponho desenvolver é escrito por uma dupla identidade: eu, enquanto ex-doente de psicoterapia e eu, enquanto profissional de saúde, nomeadamente fisioterapeuta. Proponho uma reflexão urgente relativamente ao mundo das terapias ditas psicológicas, principalmente as de cariz psicodinâmico, as quais se têm multiplicado e globalizado neste nosso mundo crescentemente neurótico. E irei apresentar a minha defesa de que este mesmo recurso – a psicoterapia – baseia-se numa perigosa sofística, alicerçando a sua intervenção num modelo essencialmente acientífico e globalmente antitético.
Desde sempre que apresentei certos sintomas neuróticos que, mais tarde, e apesar da grande complexidade de qualquer acto de diagnóstico médico, iriam ser identificados como uma perturbação obsessivo-compulsiva. Eu mesmo, enquanto estudante de Fisioterapia fascinado pelas cadeiras curriculares de psicologia e psicopatologia, viria lentamente a aperceber-me do meu diagnóstico, segundo os padrões do manual de diagnóstico das perturbações mentais DSM-IV. Numa altura em que sofria de grandes obsessões, no formato de pensamentos ruminativos constantes e bastante pregnantes, resolvi recorrer a um psiquiatra, que, na altura, desconhecia ser igualmente psicanalista. Logo na primeira sessão que tive com este profissional, dei de caras com alguém que tinha uma poderosa gíria psicodinâmica e valorizava muito os aspectos relativos aos meus pais e à minha namorada (da altura). E foi nessa mesma primeira sessão que o mesmo profissional sugeriu que tanto a minha relação com a minha mãe como a relação com a minha namorada eram relações de conflito edipiano, dadas a um complexo de castração, do qual sofria. Tudo isso seria o barco no qual navegaria nos próximos tempos... As minhas obsessões estariam ligadas a um conflito existente entre a ansiedade de castração e a ansiedade de separação.
Não posso negar que acabei por ser contagiado por todo este manancial teorético de psicanálise e psicodinâmica. De tal forma que li incontáveis livros sobre o assunto e cheguei a fazer um ano de curso de Psicologia, assim como estudos pós-graduados na mesma área. Ora, foi nessa mesma altura, em que acumulei certos conhecimentos sobre psicologia e psicoterapia, que me apercebi que a psicanálise era apenas uma entre vários tipos de psicoterapias, havendo também terapias de segunda geração (como a terapia cognitivo-comportamental) e terapias de terceira geração.
Importa referir que, entre tantas e tantas sessões de psicoterapia analítica, as minhas obsessões nunca melhoraram significativamente. Mas, um pouco porque o psicanalista possuía um certo carácter persuasivo, lá fui continuando a fazer a minha terapia semanal (na verdade, continuei durante anos a fio). E nunca, em todo o processo o terapeuta valorizou a administração de certos medicamentos, nem mesmo quando tinha crises de obsessões e pânicos que me levavam a reflectir na solução suicida. Lembro-me que, em determinada altura, resolvi procurar uma terapeuta cognitivo-comportamental, a qual possuía portanto uma orientação psicoterapêutica diferente da psicanálise. Segundo ela, não sofria de qualquer complexo de castração, mas tinha um Eu patológico que tinha de ser “descartado” por meio da racionalização e do stop-thinking. No momento em que contei tal coisa ao meu psicanalista ele zangou-se e colocou-me entre a espada e a parede: ou ele (que não fazia separação entre o Eu normal e o Eu patológico) ou a psicóloga cognitivo-comportamental.
Fui eu mesmo que, sozinho, através das minhas pesquisas à Medline, descobri que havia medicamentos, como a clomipramina, que podiam ser mais adaptáveis à minha perturbação. Sugeri-o ao psiquiatra/psicanalista, o qual, apesar de ter passado a medicação, disse sempre que as minhas obsessões só poderiam desaparecer quando o meu conflito edipiano tivesse sido resolvido.
Houve alturas em que visitei outros psicólogos, alguns até me “venderam” as terapias de terceira geração. Mas todos os psicoterapeutas que visitava impunham-me o seu modelo, a sua arte como única e suma na resolução da minha vida. Não houve ninguém, a não ser um outro psiquiatra que viria a descobrir, que valorizasse a minha própria autonomia e o conjunto das verdades que perfazem a minha vida e a minha identidade.
À custa das teorias do meu psicanalista, fiz anos de terapia, muitas vezes sem estar medicado (pois a psicanálise seria a verdadeira panaceia!...), apesar dos queixumes dos meus pensamentos obsessivos. Somente com a administração da clomipramina acabei por libertar-me da grande percentagem dos meus sintomas, coisa com que o psicanalista não concordava de todo.
Ao final de anos de psicoterapias, concluo que não houve praticamente um momento em que a minha liberdade tivesse sido respeitada. Pois, afinal de contas, nunca pedi que a minha vida fosse mudada, somente não queria ter os sintomas neuróticos. Os medicamentos permitem-me isso e não questionam as minhas relações pessoais. É talvez necessário dizer que, entre muitas outras coisas, o psicanalista era contra a minha relação com certas pessoas, era contra certos gostos meus, para além de considerar a homossexualidade uma bizarria, as mulheres inferiores à realidade masculina, e o mundo dos fármacos como uma conspiração das indústrias.
Pergunto-me: no meio de tantas teorias, no meio de tantos paradigmas de trabalho psicoterapêutico, onde reside a objectividade, onde reside a cientificidade que justifique os doentes gastarem rios de dinheiro com a psicoterapia? Acredito que, muitas vezes, as pessoas melhoram meramente porque estabeleceram relações fusionais “protectivas” com os terapeutas (coisa que seria precisamente o lado a combater, na lógica da psicanálise), não devido à própria terapia.
Enquanto fisioterapeuta que sou, também reconheço a existência de paradigmas e modelos de intervenção no seio da Fisioterapia, mas reconheço ainda mais que a grande escolha do modelo a seguir reside nos resultados que são obtidos junto do doente. E para além disso, tentamos, na Fisioterapia, seguir, tratamentos que estejam adequadamente traduzidos numa linguagem científica e popperianamente “falsificável”.
Como fisioterapeuta de reeducação postural que sou não deixo (contudo) de questionar aqueles terapeutas que prometem corrigir grandes deformidades, e todos aqueles que desvalorizam a utilização de terapias centradas nos sintomas. É que, pela minha experiência, compreendo cada vez mais que a mudança estrutural, seja corpórea ou seja personalística, não ocorre de um dia para o outro, se é que chega mesmo a ocorrer verdadeiramente.
O controlo que certos profissionais de saúde assumem relativamente aos seus doentes ou “analisandos” é totalmente inaceitável, sendo absolutamente antitético contrariar o princípio bioético da autonomia, o qual aparece consagrado nos cânones basilares da Organização Mundial de Saúde. Aliás, já em tempos, um autor, Michel Foucault, viria a reflectir as relações entre o profissional de saúde e o doente como relações de poder, tendo dado uma nova interpretação – historicista – dos confins da “loucura” e daquele movimento que viria a ser conhecido como “anti-psiquiatria”.
Considero que a actuação do meu psicanalista, ao denegar a importância dos medicamentos para o tratamento da minha “neurose obsessiva”, foi uma forma de negligência. Assim como a tentativa de certos psicanalistas de tornarem um homossexual heterossexual, ou a tentativa de certos psicoterapeutas de intervencionarem na vida pessoal dos doentes, constitui uma forma de interferência inaceitável. Mais tarde, um outro psiquiatra viria a corroborar esta minha visão, não entendendo a atitude fanática de certos terapeutas alérgicos a uma visão mais sincrética, sintética e/ou ecléctica.
Considero, portanto, que por advogarem tantas “verdades” não científicas, e pelo grau de interferência que consubstanciam na vida dos doentes, o mundo das psicoterapias ancora numa forma de perigoso relativismo, colocando os próprios doentes em risco. Aliás, já na primeira metade do século XX, Karl Popper viria a criticar severamente a existência de certas pseudo-ciências, como a psicanálise ou a psicologia pessoal de Adler, alegando que, por tudo explicarem e por não definirem um objecto de testabilidade, certas psicoterapias roçavam os limites do desenvolvimento pré-científico, não respeitando os critérios da constituição de uma ciência adequadamente falsificável. Por outro lado, mediante certas “desculpas” de que as ciências humanas não podem ser vistas segundo os modelos das ciências exactas, e de que a personalidade humana não pode nunca ser entendida de uma forma totalmente científica – segundo o modelo de ciência moderna – tem sido permitida a emergência de um certo relativismo, actualmente mecanizado pelo pós-modernismo, o qual consubstancia o “estudo de caso” e o método idiográfico enquanto métodos “científicos”, quando, no fundo, permitem o mesmo grau de “seriedade” que vemos na astrologia ou nos livros de auto-ajuda.
A assunção de metodologias “pós-modernas” e a emergência da respeitabilidade histórica atribuída à psicanálise têm permitido um certo exercício de poder por parte dos psicanalistas, os quais se comportam como “donos da (sua) Verdade”, interferindo e manietando as vidas dos doentes de formas potencialmente danosas e eventualmente fatais. Para mim, já não faz sentido o modelo do “expert”, que exerce um certo domínio sobre o doente, fazendo interpretações “livres” dos seus comportamentos, e toldando certas decisões que só ao doente dizem respeito. O profissional de saúde, médico ou terapeuta, não é o verdadeiro decisor no processo clínico do doente. O doente é que é o verdadeiro decisor da sua saúde. Daí o conceito de “empowerment”! Cabe ao profissional de saúde aconselhar e orientar, com respeito absoluto e inegável pelo livre arbítrio do doente/cliente. Penso que os psicoterapeutas não respeitam, na sua generalidade, essa mesma liberdade individual, que um certo existencialismo sartriano tantas vezes defendeu.
Fica o meu manifesto e a urgência de atribuir aos doentes os instrumentos da sua livre perfectibilidade.

Sábado, Agosto 22, 2009

Sobre a higiene postural e a ergonomia posicional (enquanto ciência)

Tanto o sistema de regras de higiene postural como toda a ciência da ergonomia posicional se baseiam numa lógica de grupo difícil de denegar. Quer isto dizer que há muitos profissionais que se têm ocupado a defender o "posicionamento" correcto nas cadeiras ou nas camas, assim como movimentos ditos fisiológicos que permitam a prevenção de problemas raquidianos. Ora, se há coisa que a Reeducação Postural, enquanto método de intervenção individualista fenomenológica, não trata é de um conjunto de regras ou princípios pré-estabelecidos de posicionamento no trabalho ou na escola. Pois é certo que, atendendo ao facto de que cada indivíduo tem a sua postura definida e idiossincrática, é, por certo, estultícia e estupidez definir regras de higiene postural.
Por exemplo, os ergonomistas e os técnicos de segurança no trabalho gostam de afirmar que o posicionamento de "sentado" deve corresponder aos 90º de ângulo coxo-femural e à "coluna direita". Nada de mais erróneo... Caímos aqui no erro da lógica de grupo ou nomotética... Pois é certo determinar uma mesma postura "correcta" para um homem cuja cadeia posterior é extremamente curta e retraída e para uma rapariga extremamente flexível? Claro que não. Para o primeiro, a manutenção das "costas direitas" seria decerto um tormento, pois a cadeia muscular posterior não possui decerto a flexibilidade necessária para se manter num estado "óptimo" de contracção. Já na rapariga com grande flexibilidade (se é desse caso que se trata), o grande comprimento da cadeia muscular posterior faria com que a manutenção das costas "direitas" acarretasse um esforço bastante menor!
Ora, é portanto óbvio que os posicionamentos ditos "correctos" acarretam diferentes tipos de esforços e consequências relacionadas para diferentes indivíduos, com diferentes posturas. Aliás, a manutenção das curvaturas fisiológicas só pode ser pedida a alguém cuja flexibilidade seja suficientemente grande para que o indivíduo em questão seja portador de uma postura perfeita. Ora, na minha experiência, ainda não vi, entre centenas de pessoas diferentes, alguém que possuísse a postura de um David de Miguel Ângelo...
Daí que toda a ciência ergonómica e da higiene postural deveria passar a ser uma ciência de conotação ideográfica, adaptada às características individuais. Portanto, a prescrição de regras de higiene postural e de ordens para manter as costas num ângulo recto são, à semelhança dos exercícios dos ginásios iguais para todos (como se de um medicamento se tratasse), uma pura fantasia ingénua.
Para além do mais, a manutenção da coluna numa posição de contracção, mantendo o encurtamento dos músculos posturais, os quais deveriam ser alongados e nunca encurtados, contraria as leis do método Mézières, as quais já tantas vezes defendi.
Advogo, portanto, a transformação da Ergonomia e da Higiene Postural numa prática com vista (e análise segundo as regras da escola francesa) à avaliação individual de cada sujeito, tendo em conta as necessidades correctivas - necessariamente diferentes - de cada um. Acabe-se de vez com as "regras". E inicie-se a prática de avaliação da idiossincrasia postural de cada indivíduo, tendo em conta a necessidade de manutenção dos músculos posturais num necessário estado de relaxamento. Aliás, por alguma razão a maioria dos indivíduos não consegue corresponder à regra das "costas direitas"... E isso deve-se à fadigabilidade dos músculos tónicos... trabalhados até à exaustão porque ergonomistas ignorantes e técnicos superiores de segurança no trabalho sem formação adequada resolveram meter a mão em assuntos que não dominam!...